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Entrevista entre conhecidos: dificuldade e vergonha na confissão

É fato que não é nada fácil assumir a responsabilidade por um erro no ambiente corporativo ainda mais quando este erro pode ser caracterizado com uma fraude ou algo contra as normas da empresa. Toda a exposição e o julgamento que esta admissão poderá acarretar é levado em consideração pelo responsável ainda mais quando a conversa para a admissão será conduzida por alguém que o responsável conhece e tem admiração.


Esta semana tive uma experiência muito interessante neste sentido e o caso era sobre vazamento de informações confidenciais. Em uma busca despretensiosa na internet um dos diretores da empresa ao digitar o nome da empresa no Google identificou vários links vinculados a empresa sem restrição de acesso em um site de armazenamento de dados da internet (nuvem). Ao perceber isso e por curiosidade o Diretor decidiu clicar nos links para verificar o conteúdo que estava disponível nesta nuvem. Com isso, o diretor identificou uma série de documentos confidenciais como atas de reuniões internas e com clientes, relatórios gerenciais e até mesmo relatórios comerciais que continham negociações com clientes.


Diante deste contexto, o Diretor sem titubear passou o incidente a empresa. O assunto foi discutido internamente e a decisão da empresa foi tentar identificar quem era o responsável pela inserção dos arquivos confidenciais neste site para solicitar que tais arquivos fossem imediatamente retirados do ar. A empresa conseguiu chegar no suposto responsável, pois identificou o IP de onde as informações foram carregadas e também comprovou que o nome de usuário que continha no site como responsável pela inserção das informações era o mesmo usuário do e-mail particular de um de seus funcionários. Ao identificar o responsável, naturalmente criou-se um ambiente de grande alvoroço e especulação, ou seja, tentando entender a razão para tal exposição das informações e levantando até mesmo hipóteses de envolvimento com a concorrência pela venda das informações ou facilitação a clientes.


Por entender que todo o trabalho técnico (levantamento de informações via TI) estava finalizado e o responsável pelo vazamento das informações já estava identificado a empresa decidiu conversar com o funcionário para identificar a razão para tal ato. Assim, a empresa solicitou que a gestora imediata apoiada pelo diretor da área e pelo gestor de TI conduzissem a conversa com o funcionário.


Em linhas gerais, a conversa não surtiu o resultado esperado, pois mesmo com a apresentação da evidência contundente ao funcionário (IP) e mostrando que o nome do usuário responsável pelo carregamento no site era o mesmo nome de usuário do seu e-mail pessoal o funcionário dizia que não entendia o que havia acontecido e que não imaginava como o usuário e senha do site(nuvem) era o mesmo do seu e-mail pessoal. O funcionário ainda relatou que no passado havia realmente pesquisado sites para carregamento de documentos, mas que não havia feito nenhum carregamento e que também não conhecia o site em que os arquivos foram carregados. Além disso, se disponibilizou para ajudar nas apurações e juntamente com os participantes da conversa deletou as informações no site.


Após a conversa a empresa ficou no seguinte dilema: O que fazer com tal situação? Por um lado as evidências eram muito claras e inquestionáveis na opinião de todos, porém, por outro lado o histórico do funcionário e a sua negação deixavam em dúvida, chegando ao ponto da diretoria da empresa levantar a hipótese de invasão de hackers, vírus ou até mesmo um outro funcionário ter feito o vazamento para prejudicar o suspeito.


Então neste momento entrei na história. Fui contratado para entender se o funcionário realmente estava envolvido com o vazamento e principalmente para identificar a intenção dele com o ato. Ao observar todo o contexto do caso e as iniciativas já tomadas pela empresa uma grande dúvida surgiu em minha mente: “Como eu conseguiria fazer o entrevistado alterar o seu discurso inicial dado a sua superiora imediata, diretor da área e gestor de TI?”


Também pensei o seguinte: “Se ele vazou as informações por má intenção ele ganhou força, pois os superiores não conseguiram obter sua admissão e nenhuma atitude foi tomada pela empresa, pois ele permaneceu trabalhando normalmente. Além disso, seria muito provável ele já ter consultado um advogado que provavelmente o instruiu para não assumir nada, pois nada poderia contrariar o primeiro discurso.”


Iniciei o trabalho com o suspeito, fazendo o discurso tradicional sobre a importância do processo, premissas legais para que ele ocorresse e sobre a necessidade de sinceridade de ambas as partes. O entrevistado preencheu o questionário dissertativo com perguntas sobre o caso e ao finalizá-lo realizamos um intervalo para análise do material e descanso do entrevistado. Já no questionário foi identificado uma série de pistas verbais (conteúdo das respostas) que indicavam sinais de dissimulação e contradição. O entrevistado não conseguia dizer que não era o responsável pelo ato e também não conseguia desqualificar a possibilidade da investigação comprovar que ele era o responsável.


Na entrevista não foi constatado nenhum aspecto motivacional ou de relacionamento interpessoal que pudesse motivar algum tipo de vingança por parte do suspeito. Ao invés disso, foi encontrado fatores positivos de satisfação com a empresa, superior e dedicação a suas atividades. Também não foi identificado nenhum fator financeiro ou qualquer outro tipo de pressão situacional que motivasse o suspeito a vazar informações para obter algum tipo de ganho. Naturalmente o entrevistado iniciou seu discurso negando o ato (isso é esperado de qualquer pessoa) e qualquer tipo de envolvimento que visasse ganho financeiro. Aos poucos suas negações e objeções começaram a ser enfraquecidas e vencidas chegando ao ponto de assumir que poderia ter carregado as informações em um site (nuvem) para trabalhar no final de semana, mas que efetivamente não lembrava o site. Após essa primeira admissão, mais alguns questionamentos foram feitos com o objetivo de entender se a sua ação tinha algum objetivo de beneficiar-se financeiramente, ou seja, comparando atos muito piores com o acontecido a fim de entender o nível de benevolência e compaixão que ele teria por um funcionário infrator.


Além disso, pude constatar o grande receio que o funcionário estava com a situação e até mesmo sua opinião sobre como a empresa poderia e deveria agir em uma situação como essa. Neste momento o funcionário assumiu a hipótese que a empresa poderia demiti-lo por justa causa e que não seria injusto por parte da empresa, mas que ela deveria entender o contexto. Depois que ele mencionou a palavra contexto, aproveitei para utilizá-la e questionar sobre qual era o contexto de trabalho e das atividades exercidas por ele e foi aí que comecei a identificar a real motivação para o carregamento de informações no site (nuvem).


O funcionário afirmou que possuía uma demanda muito alta e que algumas vezes permanecia algumas horas trabalhando além do seu horário normal para finalizar suas atividades. Disse também que em um determinado momento a empresa começou a solicitar que os funcionários diminuíssem a carga de horas extras, assim os funcionários batiam o ponto e voltavam a trabalhar por mais algum tempo. Quando não conseguia finalizar suas atividades a tempo, afirmou que era comum copiar alguns arquivos em seu Pen drive para trabalhar a noite ou nos finais de semana em casa. Afirmou que fazia isso, pois não possuía lap top e por isso não tinha acesso a VPN da empresa, assim se não salvasse em um pen drive ou até mesmo não enviasse ao seu e-mail pessoal não conseguiria trabalhar. Ressaltou ainda, que tal situação era algo comum entre os funcionários e que a sua superiora imediata tinha ciência que eventualmente trabalhava em casa.


A partir deste momento tive que tomar a decisão de fazer a declaração direta de culpa para fazer com que o funcionário admitisse verbalmente a autoria no vazamento das informações e chegássemos na conclusão se foi um vazamento por má intenção ou não. Após a efetivação da declaração direta de culpa, a culpa foi aceita pelo funcionário e o esclarecimento que deveríamos fazer naquele momento era entender a mudança de padrão de carregamento de arquivos. Antes era no Pen drive e em uma quantidade reduzida de arquivos e agora era em uma nuvem na internet e uma grande quantidade de arquivos.


Diante deste questionamento o funcionário trouxe um fato novo. Ele disse que no ano passado surgiu um problema de saúde o qual passaria por uma intervenção cirúrgica e ficaria afastado por aproximadamente 15 dias. Além do seu afastamento, sua gestora imediata estava de licença maternidade, ou seja, sua área ficaria muito comprometida e com isso pensou na hipótese de levar seus arquivos para sua casa e assim, mesmo estando de licença trabalharia e minimizaria os impactos dos afastamentos. Afirmou que pensou na hipótese do Pen drive, mas como eram muitos arquivos pensou na hipótese de carregar os arquivos em uma nuvem na internet e assim ter a disposição os arquivos para trabalhar. Com isso, começou a procurar e encontrou o site que carregou os documentos, porém, não imaginava que os documentos ficariam com acesso público a qualquer pessoa.


Ao ser questionado sobre a razão de ter negado quando da conversa com sua gestora imediata, diretor da área e gestor de TI, afirmou que foi pego de surpresa e que não imaginava que aquilo poderia ter acontecido, pois apesar de ter carregado os arquivos, sua cirurgia foi mais grave do que o previsto, assim tendo que permanecer em repouso absoluto e esquecendo dos arquivos na nuvem. Afirmou que tal situação é verdade, pois nem mesmo os e-mails do site de cadastramento enviados ao seu e-mail pessoal haviam sido lidos por ele, estando como mensagens novas.


Afirmou que sua primeira reação foi negar, pois efetivamente não se lembrava dos arquivos na nuvem no primeiro momento, porém, conforme os gestores apresentavam as evidências que o carregamento havia saído de sua máquina e que o usuário e login do carregamento eram os mesmos de seu e-mail particular sua lembrança se restabeleceu, contudo, o medo e a vergonha de assumir o carregamento surgiu fortemente, pois concluiu imediatamente que mesmo que de maneira não intencional poderia ter prejudicado a empresa. Além disso, afirmou que o fator vergonha em assumir algo a frente de sua gestora, pessoa está a que admira muito pesou bastante para ele.


Diante de tudo o que foi exposto foi concluído que houve um vazamento de informações por negligência, mas não com a intenção de prejudicar a empresa e por consequência se beneficiar financeiramente e sim pelo fato de querer trabalhar quando de licença para auxiliar a empresa.


Ao final da entrevista o entrevistado agradeceu a condução isenta e imparcial do processo e afirmou que apesar de ter que mudar sua história, assumindo que mentiu, que foi muito mais fácil contar a verdade nesta entrevista.


Moral do caso:


É muito mais fácil contar um erro para alguém que você não conhece, que provavelmente não terá mais nenhum contato no futuro e que não fará nenhum tipo de julgamento sobre a sua pessoa do que contar um erro para alguém que você tem contato diário e talvez admire.


Este é o mesmo princípio dos canais de denúncias, ou seja, eles são geridos por estruturas externas na maioria por outras empresas as quais dão garantias sobre a não identificação do denunciante e sobre a confidencialidade das informações passadas. Assim, criando um ambiente para que o denunciante se sinta à vontade para falar o que quiser, pois ele nem imagina quem está do outro lado.

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